quarta-feira, 23 outubro 2019

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Trilogia romanesca de Teixeira de Sousa representa 100 anos de história de Cabo Verde – Fátima Fernandes

A trilogia romanesca de Henrique Teixeira de Sousa, constituída por Ilhéu de Contenda, Xaguate e Na Ribeira de Deus, representa 100 anos de historia de Cabo Verde, considera a professora universitária e investigadora da cátedra Eugénio Tavares, Fátima Fernandes.

Esta professora e investigadora, que a convite da Fundação Casa das Bandeiras, proferiu sexta-feira uma conferência sobre a trilogia romanesca do autor, no quadro do centenário do seu nascimento, disse que aproveitou este percurso para fazer o levantamento dos aspectos relativos a Cabo Verde que estão presentes nestas obras e criar apetite dos mais jovens para a leitura, podendo assim entender a importância que um escritor como Teixeira de Sousa tem na história da literatura, da cultura e da sociedade cabo-verdiana.

De entre os vários aspectos constantes dos três romances, Fátima Fernandes destacou, primeiro a visão individual que o cabo-verdiano tem de si próprio e dos outros, naquilo que chamou de vertente antropológica, e o segundo aspecto está relacionado com a questão das tradições e da cultura, que é uma miscelânea da cultura ocidental com as raízes africanas, desde as tradições ligadas à morte, às grandes festas, o sagrado e o profano.

Por exemplo, apontou que Na Ribeira de Deus o autor foi buscar uma lenda africana para iniciar a obra e parece que há uma espécie de contradição, pois o texto começa com a festa de Nossa Senhora do Socorro, uma santa católica.

A conferencista, além dos aspectos antropológicos e da cultura, destacou ainda a própria língua, pois na obra do escritor há vários elementos que podem ajudar a compreender para o seu enriquecimento, desde o crioulo de Sotavento, sobretudo a variante do Fogo mesclada com os brasileirismos e influências americanas.

Outra questão que se destaca nas obras de Teixeira de Sousa, no dizer da professora e investigadora, é a capacidade para detalhes e pormenores da maneira de ser, estar e conviver das pessoas de várias classes sociais.

Às vezes, referiu, cria-se um modelo baseado no “funco, loja e sobrado” para fazer estratificação social, mas esta imagem não é bem assim em Teixeira de Sousa, mas antes é algo “muito mais rico” e que se pode ver em aspectos simples como os diálogos, as trocas de conversa, a música, o “rafodjo” que existe muito nas suas obras, sobretudo em  Na Ribeira de Deus.

Por tudo isso, Teixeira de Sousa, considerou a professora, é um “grande romancista” cabo-verdiano e na época que ele viveu não se encontra um escritor com seis ou sete romances com o peso que eles têm e que dá uma ideia muito mais completa da sociedade cabo-verdiana.

Como desafios, Fátima Fernandes apontou a necessidade de promover a leitura, e neste caso a Fundação Casa das Bandeiras já iniciou este trabalho, mas é preciso continuar a divulgar e preservar as obras dos autores, sobretudo daqueles que já morreram, com uma publicação em larga escala das suas obras para que a população que não tem grande posses, possa beneficiar delas.

Por outro lado, as escolas e as bibliotecas, devem criar as condições para que as pessoas tenham mais acesso aos livros, observando que existem obras de leitura obrigatória nas escolas, mas elas não estão disponíveis no mercado, e é necessário trabalhar para mudar este cenário.

Teixeira de Sousa, segundo a mesma, é apenas um no conjunto de vários autores que praticamente não chegam às escolas, umas vezes porque não se ensinam e outras porque não estão presentes de uma forma mais frequente para que o aluno tenha acesso.

Ainda desafiou os pais e encarregados de educação para que valorizem mais a sua história e aquilo que é cabo-verdiano, porque se a nova geração não está a acompanhar e tem falta de conhecimento e de dados é porque não tem acesso aos mesmos e há que encontrar mecanismos e canais para colmatar esta situação.

Além desta conferência sobre a trilogia romanesca de Teixeira de Sousa, o programa de comemoração do centenário do seu nascimento prossegue e a próxima actividade é a exibição, no dia 25 de Outubro, do filme Ilhéu de Contenda, baseado na obra do escritor, realizado na década de 90 do século passado pelo professor e realizador cabo-verdiano, Leão Lopes.

No final de Novembro prevê-se uma palestra sobre aspectos novos relacionados com Teixeira de Sousa, a ser orientada pela professora Antonieta Lopes e em Dezembro (19) a companhia de teatro da escola secundária de São Filipe, que ostenta o nome do escritor, apresentará uma peça de teatro baseada no conto “A família de Aniceto Brazão”, um dos contos da coletânea Contra Mar e Vento.

Inforpress/Fim

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