17-11-2018

C Crónicas

Alarme no mar das ilhas- perda de Maria Fernanda

PERDA DE MARIA FERNANDA - 23 DE JULHO DE 1966

Sidonio Monteiro

Era tempo de férias . Depois de um ano lectivo a maior preocupação de todos nós , estudantes do Fogo na Praia, era encontrar um barco que nos levasse de volta para as merecidas férias académicas e estar junto dos familiares e dos nossos amigos que na altura não tiveram a sorte de vir à capital frequentar o liceu.
Maria Fernanda, era um pequeno barquinho que habitualmente fazia o percurso Praia /Mosteiros. Dessa vez éramos cerca de 20 passageiros entre estudantes e alguns adultos. Capitaneado por um mosteirense, conhecido por Djonsinho de Mané Faba, partimos por volta das nove horas da noite e contávamos amanhecer no porto dos Mosteiros. Lembro-me perfeitamente de um passageiro, Totone Nha Canda , por volta das 8 da manhã ter consultado o relógio e dito, em português : são oito horas, nem se vê o vulcão , estamos perdidos.
E aí começou o processo de busca da tão desejada terra firme. Vimos passar barcos , como o Rita Maria, entre muitos outros e por mais que se fizesse sinal de socorro nenhum nos acudiu. Pudera, não me lembro de nenhum artefacto próprio para sinalizar o perigo a não,ser acenos por nossa parte, num barquinho que ainda tinha combustível e navegava sem rumo nem direção à procura de alguma das nossas pequenas ilhas.
Não era costume dar comida aos passageiros e de mantimento só se levava o suficiente para a tripulação. Ainda assim tivemos direito a um almoço e a um pouco de água que levavam num barril.
Foram três dias de intensa busca em que nós parecíamos ser o centro de tudo pois à nossa volta só víamos o horizonte e alguns pássaros marinhos. A pequena quantidade de água foi racionada e mal dava para molharmos os lábios. Alguns passageiros levavam cocos e lembro-me de ter tomado dois cocos, um para mim e outro para o Alcides Canuto, no Valdemiro Brumedja com a promessa de pagarmos à chegada. A Pipi de Bebe levava um bolo que nos repartiu e comemos apesar de ter apanhado um pouco de água do mar. O Capitão, Djonsinho, tinha consigo algumas bolachas e alguns pedacinhos de mandioca que me ia fornecendo sempre que lhe pedia.
E assim fomos passando os dias entre alguns choros e lamentos dos adultos e alguma diversão e descontração dos mais novos que no dizer dos adultos não tinham a noção do perigo nem responsabilidades na vida, até que por volta das 17:20, um marinheiro muito alto, da ilha do Maio, avistou um pássaro indo numa direção. Desta vez não eram os pássaros que vínhamos observando todos os dias. O marinheiro o identificou como sendo Alcatraz e nos informou que aquele pássaro dormia sempre em terra. Todos memorizamos na altura o rumo e contávamos chegar à Praia ainda nessa noite porque pensávamos que ainda nos encontrávamos perto de Santiago e que o Alcatraz ia dormir perto de Rincão. O Valdemiro Brumedja prometeu uma batucada em Ponta de Água logo que chegássemos à cidade da Praia nessa noite como todos pensávamos. A noite ia caindo e a alegria tomou conta de todos quando no lusco-fusco alguém pôde vislumbrar algo parecido com terra. Afinal era mesmo terra e todos, incluindo o marinheiro maiense, pensávamos que íamos chegar a Santiago até que ele se deu conta que a profundidade do mar não podia ser da costa da ilha maior, tendo-se afastado um pouco para poder perceber de que ilha se tratava. Com o chegar da madrugada os tripulantes reconheceram a ilha da Boa Vista e iniciamos a navegação em direção ao Porto de Sal Rei. alcatraz ave
Durante este percurso ao lado da Boa Vista e já no raiar do dia a nossa agradável surpresa foi ter avistado um pequeno Ilheu onde se viam muitos alcatrazes, o pássaro que nos deu o rumo e nos levou em direção a terra firme. Não faltaram acenos e testemunhos de gratidão para com essas simpáticas aves que iam sobrevoando o pequeno navio que nos levava em direção ao Porto de Sal Rei.
O barquinho entrou até perto do cais e para nossa estranheza, a água do mar não tinha a cor azul turquesa a que estávamos habituados a ver nos Mosteiros onde o mar é muito profundo e para o nosso espanto víamos a própria quilha do barco e tudo o que havia no fundo do mar.
No cais via-se já um conglomerado de gente à nossa espera pois já era do domínio público a perda do Maria Fernanda com mais de 20 pessoas a bordo havia quatro dias.
Nessa ilha fomos bem acolhidos, um grupo de que eu fazia parte, em casa da D.Domingas Carvalho, e outro grupo numa dependência da Administração do Concelho. Aí ficamos três dias, aguardando que um outro Capitao viesse da Praia para levar o barco de volta à Praia. Do meu irmão Pedro recebi um vale telegráfico no valor de 500$00, na altura um valor considerável, pedindo ainda que eu e o Alcides Canuto ficássemos na Boa Vista até a chegada do Novas de Alegria, um barco veleiro, com um motor e que dava a volta às ilhas, o que não aconteceu porque decidimos acompanhar o grupo todo na viagem de regresso.
Infelizmente eu não pude continuar a viagem da Praia para os Mosteiros com o Capitão Anibal que substituiu o Djonsinho, impedido pelo meu irmão que me obrigou a aguardar a passagem do Novas de Alegria, que como sempre, nessa volta , ia da Praia aos Mosteiros e seguia para S Filipe e por ultimo para a ilha da Brava. Aliás e a jeito de brincadeira lembro-me de que sempre que nos perguntavam se éramos do Fogo, respondíamos : não, somos dos Mosteiros. Tudo isso porque nos avisos marítimos que se dava pela rádio dizia-se que o Barco tal ia viajar para Mosteiros, Fogo e Brava, como se Mosteiros não pertencesse à ilha do Fogo.
Os meus familiares souberam que eu estava nesse barco porque o meu irmão Pedro mal soube da nossa chegada a Boa Vista mandou um telegrama ao meu pai, dizendo que estava são e salvo na BV. Esse ano não mandei a habitual lembrança pela rádio, o programa com maior audiência na ilha, avisando da minha chegada no dia seguinte.
Hoje completam-se 50 anos da nossa partida e coincide o dia da semana com aquele 23 de Julho de 1966. Cabo Verde mudou tanto e os mais novos deviam ter a preocupação de conhecer como foi que muitos de nós conseguimos na altura ter acesso ao ensino secundário, hoje ao alcance de todos os nossos filhos em cada concelho do país .
Muitos episódios há para se contar nessas nossas travessias em busca de um futuro melhor e a bordo dos nossos barquinhos de então como o falucho Lourdes, o navio Santiago, o Pérola de Oceano , ou o Primos, só para citar alguns desses barquinhos que ligavam os nossos portos. Espero que outros relatem outros episódios dessa fatídica viajem, onde além do Alcides Canuto iam também outros jovens de então como o David Gomes mais conhecido por Neves de Chã das Caldeiras, o Manuel António Montrond, a Pipi de Bebe, o Natavo Djon de Laura, ou o Leonel e o irmão Zezinho de Feijoal, sem deixar de referir o Totone Nha Canda, o Valdemiro Brumedja, Manidjinha, Nha Mina, Nezinho para citar os que ainda a memória retém.

Sidónio Monteiro

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