quarta-feira, 13 novembro 2019

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Cidade de São Filipe acolhe 85 edifícios patrimoniais dos mais de uma centena que existem na ilha

O Instituto de Investigação do Património Cultural (IPC), identificou, no quadro do projecto de inventário de património imóvel, 120 edifícios públicos, privados, religiosos e espaços de memória na ilha do Fogo, dos quais 85 estão em São Filipe.

Dos monumentos e sítios com valor histórico, patrimonial, artístico, 85 estão situados na cidade de São Filipe e inclui sobrados, casas retangulares, praças/pracetas e edifícios públicos, sobretudo no núcleo histórico de São Filipe, que é um património cultural nacional.

Na data da celebração do Dia Mundial de Sítios e Monumentos, 18 Abril, a Inforpress recolheu opiniões de actividades, promotores e autoridades municipais que trabalham na área de cultura para perceber o estado da preservação e gestão dos sítios e monumentos construídos e naturais e as políticas existentes para o sector.

Para o professor, activista cultural e conhecedor da história e cultura de São Filipe e da ilha no geral, Fausto do Rosário, em termos de sítios e monumentos, a ilha, sobretudo o município de São Filipe, está “cheio de monumentos e de sítios históricos de interesse patrimonial diverso, construído e natural”, e apontou como exemplos os sobrados, as pracetas, os largos e outras edificações de “belo interesse histórico” como o núcleo histórico da cidade de São Filipe, São Lourenço, São Miguel (Mosteiros), Chã das Caldeiras (natural), e de grande valor histórico como Pico Pires, que, conforme disse, continua “subvalorizado” apesar da sua importância na história de Cabo Verde.

Segundo Fausto do Rosário, em termos de preservação dos sítios e monumentos, se apercebe a “olho nú” da “necessidade dramática” de tudo se fazer para preservar, reabilitar e divulgar estes sítios e monumentos, sublinhando que “São Filipe precisa de uma intervenção qualificada urgente no que toca a plano de salvaguarda e da sua preservação”.

Não basta pintar como o artista plástico, Paulo de Pina, tem feito nos últimos anos, frisou.

Considera, por outro lado, que existe sensibilidade, mas não uma política definida, faltando a articulação entre os organismos centrais e locais ou periféricos, indicando que em São Filipe há um conjunto de intervenções do IPC que nem sempre correspondem ou estão articuladas, além de continuar a ter acções aprovadas e que não deveriam ter acontecido, o que significa que ainda há um longo caminho a percorrer no sentido da coordenação e da definição das acções e das estratégias de como fazer.

“Temos de começar a exigir aos poderes públicos e todo o sector privado, que é urgente salvar e preservar São Filipe”, afirmou, lembrando que se está a três anos da comemoração do centenário da elevação de São Filipe a categoria de cidade (Julho de 1922).

Para Fausto do Rosário, Pico Pires é um exemplo mais perfeito na ilha do Fogo do que se pode considerar o Morgadio, com todos os seus elementos estruturais, desde a capela, casa grande, armazéns, delimitações da propriedade, incluindo os recheios que são valiosíssimos, ultrapassando a dimensão da ilha, observando que pertenceu e ainda pertence à família Sacramento Monteiro, aos descendentes de Tadeu Sacramento Monteiro e Francisco Sacramento Monteiro, este, o último morgado da ilha.

“Há toda uma história que está a olho nu, uma infraestrutura que de “per si” é um monumento, um sítio histórico por excelência e que falta de facto preservar”, disse este activista que defende que o sítio deve passar a pertencer ao Estado de Cabo Verde e ser considerado um monumento nacional.

Na lista dos monumentos, além do núcleo histórico, do Pico Pires, Rosário disse que é necessário dar alguma atenção ao núcleo histórico de São Miguel (Mosteiros), as ruínas da casa/sobrado de Armand Montrond, em Achada Maurício, uma vez que é uma figura de referência na ilha e um “poderoso chamariz turístico”.

Para Monique Widmer, proprietária da Casa da Memória, a cidade é valiosa e as pessoas que a visitam (turistas e nacionais das outras ilhas), acham que o núcleo histórico é de grande importância e destaca à primeira vista conservando os traços da sociedade do passado e “revela uma história”.

Conforme acrescentou, reconhece que nos últimos dois anos fez-se o levantamento do centro histórico, dos sobrados, casas, ruas, praças, o ambiente e dos pormenores, mas observa que depois disso há um outro passo a ser dado que é preparar um programa de reabilitação, requalificação e embelezamento.

São Filipe é conhecida como “cidade dos sobrados”, disse, mas o centro histórico vai para além de uma leitura ideológica, pois, os monumentos e sítios falam do passado e olhando de forma objectiva para a história, com os seus lados bons e menos bons e com as diferenças sociais que existia como existe em muitos lugares do mundo.

“As pessoas daqui não se exprimem da mesma maneira das pessoas que vêm de fora, porque vivem aqui dentro e não se dão conta da integração da cidade e do campo”, considera a proprietária da Casa da Memoria, destacando várias paisagens naturais que são importantes, sítios e monumentos.

Como preferência, Monique Widmer destaca as igrejas e capelas, que são marcos importantes (religiosos e populares), o resgatar de todas as fotografias antigas, na posse de várias pessoas, sobre aquilo que foi destruído, a praça junto à Camara e do Alto São Pedro, como as casas que as contornam, merecem um cuidado especial, não deixando depois que cada um faça o que quiser com a modernização.

Já o proprietário da empresa Djar´Fogo, com intervenção no domínio da cultura e turismo, Agnelo Vieira de Andrade, questionado sobre a preservação/conservação dos sítios e monumentos, afirma que “não há preservação nenhuma”. O que se passa é que “estragam e depois falam da requalificação”, sublinhou, observando que não entende esta política e defende que o Instituto de Investigação do Património Cultural (IPC) devia ter mais força e poder para agir e obrigar a todos a respeitar as coisas.

Segundo o mesmo, apesar da Constituição da República consagrar que o Estado é o garante da conservação de sítios e monumentos, não se faz nada e que nas coisas do Estado a degradação é ainda maior, apontando como exemplo, o antigo edifício da alfândega (ex-cadeia civil) que está abandonado e a recuperação da praça em frente deste edifício sem se ter o cuidado de ver o ponto zero que havia no espaço e que simboliza o ponto de partida da própria cidade.

“Destroem tudo e querem fazer à moda deles, sem ter o cuidado com aquilo que é histórico, porque não investigam e não fazem o levantamento correcto das coisas”, afirma, observando que “cada um que vem pinta tudo da cor política que os agradam”, esquecendo que são coisas do Estado e não dos partidos políticos.

Agnelo Vieira de Andrade defende que aquilo que faz parte da história deve ser preservado, não apenas os sobrados, com harmonia entre aquilo que se constrói e o existente, sem permitir por exemplo a colocação de azulejos nas fachadas e na parte exterior das casas do centro histórico, por exemplo.

Os cemitérios, porque são jardins públicos, que têm muitos elementos históricos e guardam memoria dos sítios, a “casa dos frescos” (pintura) que devia ser preservada por ser única na cidade, e preservação de todos os edifícios do Estado Novo, como o tribunal, depósitos de águas, escolas primárias, perímetro florestal de Monte Velha, que são marcos e que ajudam entender esta fase que está em vias de esquecimento, são os sítios e monumentos preferidos.

Sobre a preservação/conservação dos sítios e monumentos a Inforpress quis ouvir também os vereadores da cultura das três camaras municipais, mas sem sucesso.

Inforpress/Fim

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