22-07-2018

C Cultura

Banderona a festa tradicional que faz de Campanas Baixo um autentico Santuário

A “Banderona” festa tradicional de bandeira em que o profano e o religioso se misturam, ganhou esta designação por ser a mais longa celebrada em toda a Ilha do Fogo, e quiçá em Cabo Verde. Inicia, regra geral, no último domingo de Janeiro (dependendo da posse do festeiro) e só termina nas vésperas do Carnaval. A nível da ilha é a festa que maior número de pessoas movimenta, com excepção da de bandeira de São Filipe que nos últimos anos ganhou um carácter nacional e internacional.

A festa da Banderona, uma manifestação cultural de raiz popular, que homenageia São João Baptista, é uma simbiose de actividade popular e religiosa, uma miscelânea do profano e sagrado, cujo palco é a localidade de Campanas de Baixo, situada no extremo norte do município de São Filipe, na fronteira com os Mosteiros, e a pouco mais de 20 quilómetros da Cidade de São Filipe. Nesta época do ano funciona como autentico “santuário” com pessoas dos mais distintos pontos da ilha e naturais de Campanas emigrados noutras paragens do mundo a regressar para celebrar a festa.

O ponto alto da “Banderona” é celebrado na segunda-feira que antecede o carnaval, com o tradicional almoço servido na casa do festeiro da bandeira grande e de praia, mas a festa inicia com alguns dias de antecedência com o tradicional pilão para preparação do milho, e na antevéspera, a “matança de animais” para o almoço.

O sinal de começo da festa é tradicionalmente dado pelo responsável, anunciado sempre com foguetes e reunião de tamboreiros e coladeras.

Segundo a lenda Banderona, surgiu há mais de dois séculos. Conta-se que na época as pessoas de Campanas de Baixo ouviram no “assobiar” do vento, sons comparados com toque de tambor e cantigas no ar, ao longo de 10 dias consecutivos, e posteriormente registaram-se ocorrência de relâmpagos e trovões, tendo um raio caído numa Ribeira onde brincavam algumas crianças.

Desde esta data, passou-se a assinalar a festa. Primeiro com um grupo de crianças que tocavam latas, mais tarde e com o passar dos anos a tradição ganhou novas dimensões sendo actualmente uma das maiores festas tradicionais da ilha.

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O ritual da Banderona aproxima-se muito do ritual da bandeira de S. João Baptista, assinalada a 24 de Junho em várias paragens da ilha. Anualmente Bandeirola é “tomada” por duas pessoas, sendo uma com a responsabilidade da “bandeira grande” e outra para a festa de “praia”.

A Banderona assenta-se numa organização bem estruturada e não obstante o factor tempo e a era da modernidade, respeita ainda a tradição antiga.

Os seus membros sucediam-se, segundo uma transmissão familiar. Actualmente os festeiros são nomeados, anualmente, para custearem e responsabilizarem-se pelas festas, processo denominado “tomar a bandeira”, que é sempre motivo de muita alegria, mediante manifestação prévia de quem vê nisso a possibilidade de pagar alguma promessa ou “divida” para com o Santo, apesar de exigir alguma condição económico-financeira.

A figura principal da organização da Banderona é o “cordidjeru” (governador) com poder máximo para dirigir e supervisionar tudo relacionado com a festa, inclusive com poderes para emitir ordens e controlar os outros, sendo o responsável maior pela realização da festa e da própria ordem.

Depois do “cordidjeru” surgem a figura dos cavaleiros, os detentores de bandeiras, que funcionam como guardiões das bandeiras e da ordem, da paz e da harmonia.

Juntamente com o “cordidjeru”, existe a figura do juiz que auxilia aquele a presidir, a votação ou nomeação dos festeiros que deverão tomar as bandeiras para o ano seguinte, na cerimónia denominada de “Bote”, que se realiza depois da fixação do Mastro.

Para acompanhar todas as actividades da Banderona, existe um corpo de coladores que integra tanto homens como mulheres, responsáveis pelos cânticos e coro, que são acompanhados por dois ou mais “caxerus” ou tamboreiros, que tocam os vários ritmos de brial da bandeira de uma forma típica da ilha.

Os coladores ou coladeras vão colando, cantando, elogiando as pessoas ou enaltecendo alguma coisa, ao que são respondidos por coro, a que chamam “kudi baxon”, enquanto os tambores vão rufando de forma ritmada e certa, com raras variações. A obrigação dos elogiados, e dos presentes, em geral, é presenteá-los com algum dinheiro ou alguma dádiva.

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Enquanto os coladores podem beber à-vontade para humedecerem a garganta e se inspirarem, já o “cordidjeru” e os cavaleiros são proibidos de beberem sob pena de sofrerem pesados castigos, o primeiro porque tem de manter a ordem e os cavaleiros, porque na qualidade de guardiões da bandeira têm de estar sóbrios para a protegê-la.

A matança é acompanhada do rufar dos tambores e cânticos das coladeras. Enquanto decorre a matança, e segundo o ritual da festa, surgem ladrões mascarados, que roubam e desaparecem, mas que nesse dia, são apanhados e amarrados.

As festividades iniciam, regra geral no último fim-de-semana de Janeiro com o pilão para preparação de Xerén-di-festa. O último sábado antes do término das festividades realiza-se a matança de animais na casa do festeiro da “bandeira grande” e na casa de “praia”, para o almoço. A matança, para alguns é o momento mais interessante mas para outros representa um autêntico “crime” pela forma como os animais são sacrificados. Esta actividade é sempre acompanhada do toque de tambores e cantares das coladeiras.

Do ritual da festa da Banderona, sobre a qual existem várias lendas. Segundo reza a tradição a pessoa devota tem de pagar a promessa exactamente como prometeu sob pena de sofrer alguma desgraça. Uma das lendas dá conta de que uma vez um homem adoentado, pediu S. João Baptista que o curasse, prometendo ofertar-lhe o bezerro. No momento de pagar a promessa, ofertou outra coisa, e num espaço de 72 horas, adoeceu de novo, acabando por morrer. Outra é de ao vigésimo terceiro dia da festa, a bandeira é levada à igreja para a celebração da missa e receber a bênção do Padre, regressando de novo à casa do festeiro, onde é colocada num altar para ouvir as promessas e para lhe acenderem velas.

Campanas baixo funciona neste período do ano como santuário e pessoas de outras localidades deslocam-se numa espécie de peregrinação para pagar promessa ou para pedir alguma coisa ao Santo, levando velas para acender a medida que rezam, pedindo algo como saúde, boa aságua, progresso, prometendo alguma coisa em troca, como aguardente, velas, sacrifício de animal...

A semelhança do São João, do ritual da Banderona faz parte também, o baile de canizade e a fixação do mastro, onde se faz a entrega dos botes, que são feitos em segredo, de ouvido a ouvido dos cavaleiros, e só depois anunciados a todos.

Após a entrega dos botes, as bandeiras são levadas, sob o ritmo das coladeras, para as casas dos novos festeiros, onde ficarão guardadas até ao ano seguinte.

Em média cerca de 400 litros de milho são triturados para confecionar xerén-di-festa e dependendo das condições económicas do festeiro, mais de vinte cabeças de animais, entre bodes, porcos e vacas são sacrificados para os últimos três dias de festas.

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De há uns anos para cá foram introduzidas outras componentes e artistas de renome nacionais tem abrilhantado as festas de Banderona dando assim mais brilho e colocando esta festa tradicional e internacionalizando aos poucos esta festa que ano após anos tem despertado maior curiosidade das pessoas.

A festa ganhou uma tal expressão que há sensivelmente um ano foi inaugurada a Casa da Comunidade e Banderona, cujo motivos da sua construção relaciona-se com a necessidade de preservar, salvaguardar e transmissão desta herança cultural, tradicional e popular, que constitui um poderoso meio de afirmação da identidade cultural.

A ideia da sua construção surgiu em 1997, ano em que Agnelo Spínola, presidente de uma associação com sede em Holanda e promotor da construção, foi festeiro da Banderona, e o objectivo foi de criar condições de conforto e de segurança para a realização das actividades de Banderona mas também para outras actividades culturais, formativas, educativas, e nos dias de hoje a comunidade de Campanas de Baixo pode-se gabar de ter um espaço nobre para celebrar a maior festa da localidade e uma das maiores da ilha do Fogo.

 

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