23-10-2018

A Artigos

A ilha do Fogo e os seus recursos naturais

Pretende-se iniciar aqui uma breve abordagem, através de uma colectânea de artigos científicos, que tentem demonstrar que a ilha do Fogo detém recursos naturais renováveis e não renováveis capazes de garantir o bem-estar das suas gentes e o almejado desenvolvimento sócio-económico da ilha e contribuir para o desenvolvimento sócio-económico de Cabo Verde, enquanto território unificado.  Para melhor se entender a contribuição dos recursos naturais para a sobrevivência dos seus habitantes e para o seu desenvolvimento sócio-económico, deve-se ter em devida consideração as valiosas contribuições dos ilustres historiadores que escreveram e continuam a escrever sobre as potencialidades ecológicas da ilha, nomeadamente, António Carreira e António Correia e Silva.

Este último dizia, no volume I da História Geral de Cabo Verde que as ilhas de Santiago e do Fogo eram as que detinham melhores potencialidades ecológicas capazes de oferecerem garantias à fixação do homem no processo de povoamento do Arquipélago. Diniz e Matos (1986) referiam-se, na Carta de Zonagem Agro-ecológica da ilha do Fogo, às características do solo e condições climatéricas propícias para a prática de agricultura de sequeiro, sobretudo nas zonas semiáridas, subhúmidas e húmidas.  Porém, se o homem da ilha do Fogo sempre se habituou a explorar as terras para a agricultura de sequeiro, em grande escala, e para a agricultura de regadio, em pequena escala, o mesmo não se pode dizer em relação ao aproveitamento das potencialidades biológicas da ilha. Vários estudos de diversos autores, sobretudo nos últimos anos, demonstraram que a ilha detém recursos biológicos em diversas zonas agro-ecológicas que, se valorizados, darão um valioso contributo à geração de rendimentos às comunidades locais e consequentemente ao desenvolvimento auto-sustentado da ilha.

No entanto, a valorização de qualquer recurso natural pressupõe o desenvolvimento de estratégias, planos e programas para a conservação e a utilização sustentável desses recursos ou a adaptação para este fim de estratégias, planos ou programas existentes, aos objectivos de gestão sustentável de recursos naturais. A valorização dos recursos biológicos pode fazer-se de várias formas, sendo o turismo rural, a estratégia que melhor sirva a esse propósito.  Nesta primeira abordagem pretende-se incidir sobre a importância da biodiversidade autóctone da ilha na prática do ecoturismo enquanto uma das vertentes de desenvolvimento sócio-económico da ilha.

Importância da biodiversidade na promoção do ecoturismo na ilha do Fogo

A ilha do Fogo conta com uma flora autóctone relativamente rica. Os dados actualizados apontam para a existência de 37 (cerca de 44%) taxa (espécies e subespécies) de plantas angiospérmicas, num total de 85 taxa a nível nacional, dos quais 6 espécies, Língua-de-vaca (Echium vulcanorum, Funcho (Tornabenea tenuíssima e Tornabenea humilis), mostarda (Diplotaxis hirta), Mato-branco ((Diplotaxis cystolithicum) e Cravo-brabo (Erisymum caboverdeanum) são endemismos exclusivos da ilha. Estes dados colocam a ilha entre os três maiores centros florísticos de Cabo Verde, depois de Santo Antão e S. Nicolau (Brochman et al., 1997). No entanto quando se analisa a riqueza de espécies e a densidade específica ou seja o número de espécies e de indivíduos de cada espécie, concentrados por unidade de espaço, a ilha do Fogo aparece em primeiro lugar.

Os dados de 2005 apontam 32 espécies de plantas angiospérmicas endémicas na área do Parque Natural do Fogo (Leyens, 2005) contra os 29 taxa da Ribeira da Torre na ilha de Santo Antão. O maior centro de distribuição da biodiversidade indígena da ilha é o Parque Natural do Fogo que integra as zonas da Bordeira do Vulcão, Pico Novo, Chã das caldeiras e Montinho.A densidade populacional tem reflexo directo no coberto vegetal e consequentemente na paisagem. No caso concreto da ilha do Fogo observa-se uma maior cobertura vegetal nas zonas da Bordeira, Montinho e Monte Velha. 

Impacte da vegetação no ecoturismo 

O turismo baseado na Natureza é entendido como uma das formas do ser humano gozar, na Natureza, os melhores momentos de lazer, sem contudo a perturbar e contaminar. A Natureza é assim um espaço físico onde se pode estudar, desfrutar e apreciar a paisagem e a vegetação natural, seguindo um processo de conservação que pressuponha a minimização da degradação ambiental. O objectivo principal das pessoas que praticam o turismo ecológico é o de terem oportunidade de conseguir na natureza o espaço de lazer que não encontram no meio urbano.  São conhecidas duas modalidades de turismo: o turismo de praia, mais conhecida e vulgarizada, e o turismo de montanha que tem a sua base na paisagem da montanha e vegetação natural. O relevo, as altitudes elevadas e a diversidade de exposições geram uma sucessão de quadros paisagísticos com tipos de comunidades vegetais com composição florística muito diversificada, emprestando a paisagem aspectos que ao longo dos tempos fizeram da sua paisagem rural uma das mais atractivas de Cabo Verde.  

Os trabalhos de campo realizados pelo Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário (INIDA) e por Leyens entre 1997 e 2002 e recentemente em Novembro de 2006 demonstraram que existem na ilha, zonas, nomeadamente, a área da antiga cratera, Montinho e Bordeira cobertas com  uma vegetação, em parte, única para Cabo Verde. As encostas de lavas e jorras vulcânicas, cobertas de verde da vegetação indígena constituem um quadro paisagístico único não só para Cabo Verde como também para o Planeta. Esses valores associados à idade dos exemplares da espécie Echium vulcanorum (Língua-de-vaca), com cerca de 300 anos de vida (Rivas Martinez, 2006-comunicação verbal), endemismo exclusivo da ilha, fazem com que Fogo seja uma das ilhas mais procurada pelos turistas que anualmente visitam Cabo Verde.

 

lingua vacaLingua-de-vaca

lingua vaca 300Lingua-de-vaca com 300 anos

mato brancoMato Branco-endemismo na ilha do Fogo


Por: Isildo Gomes
Biólogo/Mestre em Gestão de Recursos Naturais

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