domingo, 26 junho 2022

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Peso da idade impossibilita Filipe Fernandes de se fazer à estrada para manter viva a tradição de reinado

Vergado pelo peso dos 94 anos, Filipe Fernandes, mais conhecido por Nhô Tchina, está sem forças para se fazer à estrada e percorrer a ilha para manter viva o reinado, uma tradição cultural genuinamente foguense.

Nhô Tchina, o reinado mais antigo da ilha e que participou por 76 vezes nesta tradição, pois começou ainda antes de atingir os 18 anos, lamenta o facto de não poder andar o dia todo e se aventurar, com o receio de que o corpo, devido a idade avançada, não possa resistir e ter ao meio da caminhada alguns problemas de saúde.

Em conversa com a Inforpress adiantou que a pessoa que o tinha acompanhado nos últimos anos, com excepção de 2021, ano em que a pandemia da covid-19 impediu o cumprimento desta tradição secular e genuinamente foguense, não está suficientemente preparada para cumprir a missão.

Há quatro anos, Filipe Fernandes comprometeu-se em não deixar morrer esta tradição enquanto tivesse forças para caminhar, mas hoje, devido as marcas e o “fardo” da idade, sentiu que lhe falta esta força para se fazer à estrada, adiantando que continua, porém, na sua residência a rezar terços sempre que para tal for solicitado.

O reinado é considerado uma das festas mais antigas da ilha e está ligado à Igreja Católica, que noutros tempos cedia a imagem dos Santos, que no final do reinado era devolvida, pese embora, ultimamente, cada “rei” guarde a sua própria imagem.

Até 2020, duas confrarias de reinado resistiam ao factor tempo, mas com o anúncio de Filipe Fernandes, de que este ano não se encontra em condições de cumprir a missão, apenas uma confraria confirmou a saída, mas também de forma limitada.

José António Freire de Andrade, mais conhecido por Alfredinho, que lidera a confraria da Nossa Senhora da Graça, de 64 anos, além da idade está com problemas de saúde, nomeadamente dores nas pernas, resultante de uma queda recente e por isso vai cumprir parcialmente a missão.

O mesmo confessou à Inforpress que além disso depara com problemas já que a sua esposa está também com problemas de saúde e não tem condições de responsabilizar-se sozinha pela casa, e, por isso, não pode ausentar-se por muito tempo.

“Mas como o Santo não pode ficar privado, pretendo sair na linha de Cova Figueira e Mosteiros, e depois regressar à casa e voltar a sair nos quatros dias anteriores à quarta-feira de Cinzas, último dia do reinado”, disse Alfredinho, assegurando que vai respeitar as regras sanitárias na celebração do terço, nomeadamente o número limitado de pessoas e com uso obrigatório de máscara.

A origem do reinado não é de todo conhecido com precisão, mas admite-se que está ligado às comemorações da festa dos Reis em Portugal, assinalada a 6 de Janeiro.

Algumas pessoas estabelecem a sua origem com alguma semelhança com “Reisado”, denominação erudita atribuída aos grupos que cantavam e dançavam na véspera e dia dos Reis, 06 de Janeiro, em Portugal.

Nem Filipe Fernandes e nem outros “reis” mais antigos souberam explicar a origem da tradição cultural nem a data da sua chegada à ilha do Fogo, apesar de alguns estudos apontam que o reinado esteve ligado ao peditório para a construção da antiga Igreja Matriz de São Filipe – o que se pressupõe ter acontecido há algumas centenas de anos.

O reinado era constituído por grupos de homens (três ou mais), católicos e praticantes, que andavam por toda a ilha, durante três luas, a rezar terços e pedindo ajuda a favor da Igreja, pese embora algumas pessoas acreditam-se que o objectivo maior do reinado era o da evangelização e por isso todos os integrantes do grupo teriam de ser católicos, baptizados/crismados, casados e escolhidos pelo padre.

No seu auge chegou-se a contabilizar um total de 24 confrarias de reinados, e normalmente eram constituídos por um “rei” que dirige e controla tudo, um rei interino, um tesoureiro e um ou mais participantes.

De acordo com as regras, os “reis” em princípio deviam reunir-se no dia 06 de Janeiro, na Igreja Matriz de São Filipe, onde assistem a uma missa, depois da qual cada reinado seguia o seu próprio itinerário, dando volta à ilha, mas há muito que esta prática deixou de ser observada.

O terço ou “ladainha” na maioria das vezes é rezado em latim. Além da imagem da Santa, o reinado dispõe de um pequeno tambor para anunciar a sua chegada, um sino e o rosário, utilizados durante a realização do terço.

A mesa normalmente é ornamentada com toalhas ou colchas, sendo que as pontas são presas à parede (com pregos de aço) e à mesa.

O santo é envolvido num lençol, excepto o rosto e, juntamente, com a imagem figuram na mesa a campainha (sino) e o rosário, enquanto o tambor é colocado debaixo da mesa que permanece enfeitada durante cinco dias após a ida do reinado.

Associado a esta tradição cultural, existe alguma lenda, nomeadamente de que os reinados não passam a ribeira de Baleia, que divide os municípios de Santa Catarina e dos Mosteiros, com o justificativo de que, uma vez, um grupo de reinado desapareceu ao tentar atravessar esta ribeira.

Por isso, até hoje o reinado não dá a volta completa à ilha, pois ao chegar a Baleia, voltam atrás para fazer o percurso inverso até os Mosteiros e, depois, retornar a São Filipe, acabando por fazer duas voltas, mas sem fechar o círculo.

No passado, o percurso era feito a pé devido a inexistência ou a existência de poucas viaturas, mas actualmente o mesmo passou a ser feito, em grande parte, através de viaturas, devido a idade avançada dos “reis”.

Inforpress/Fim

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