terça-feira, 04 outubro 2022

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Figuras da ilha do Fogo- cantaderas populares

FIGURAS DA ILHA - CANTADÊRAS POPULARES

As nossas sedutoras cantadeiras de Karkutissan, que influenciaram decisivamente o rap, devem ser homenageadas todos os dias! Por isso, descrever, no limiar destes novos tempos, os ritmos musicais das centenárias “Festas da Bandêra” da Ilha do Fogo - Cabo Verde, sabe, à primeira degustação, a um gole de manecon, tragado de uma assentada pela garganta seca da boca encantadora de Tintina Mané di Bedja, Beba de Elvira, Ema Filipa, Idalina (Catarina) Pina Brandão, Laura Joaninha, Mémé, Sirvina ou Maria Marciana, velhas coladêras populares, hoje de cataduras tristes, peles enrugadas e carcomidas pelo tempo, à imagem, sabor e ritmo com que vai-se esvanecendo o fulgor destas manifestações das festas de santos populares – vanguardeadas, em tempos, por Ana Nhâ Procópio.cantadera2cantadera

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São cantadeiras das festas populares cujas caraterísticas comuns se convergem na espontaneidade, criatividade, repentismos e improvisos que emprestaram às festas da ilha do Fogo – ao longo dos tempos – uma riqueza cultural e patrimonial, poética e musicalmente extraordinárias, superiormente desenvolvidas e estilizadas pelos Mendes Brothers, Talulu, Michel ou Putxota e demais.

Envolvendo-se um pouco mais profundamente na aventura que é a descoberta da origem destas cantigas e do porquê da sua rica variedade rítmica, concluímos que afinal vale a pena saborear, de leve, cada ingrediente desta mistura que o tempo se encarregou de fazer, quer seja ela Brial fincado ou trabessado, Brial de cavaleiro, Brial de pilão, Nhâ Damarcha, Maria Tana, Braga Maria, Canizade, Preto ou Curém. Estes são alguns dos ritmos da Bandêra que o tempo se encarregou de desenvolver, enriquecendo-os e trazê-los até nós. Caraterizam-se por uma certa natureza mista, do tropical ao afro-europeia como, aliás, se pressupõe ser a natureza das Festas de Bandêra do Fogo.

É o contexto típico e o ambiente natural das Coladeiras Populares, ou seja, das Cantadêras das Festas da Bandêra. Vejamos, por isso, como Ema Filipa de Pina (Ema Filipa), nascida em abril de 1925 (ainda viva) e residente em Patim, neles se envolveu e virou coladêra.

Contou-nos que:
“Dimingo Noquinha tinha um tamboron de Nhônhô de Nhô Tchina que mantinha pendurado na casa de Noquinha, lâ de riba, ano tâ entrâ, ano tâ saí. Brincávamos de coladêras. Íamos à casa de Dádá que nos dava milho; casa de Djiga que nos dava cuscuz; outros nos ofereciam fijon grós e cuza in gran. Roubávamos cana de milho ou cariços para fazermos Pé de Mastro nas épocas de boa aságua. Titia, contente com aquelas nossas carantonhas de rapariguinhas, fazia comida para nós que atassalhávamos à volta de uma tagarra, quando não houvesse colher, porque naquela altura colher era de corno de vaca ou de lata, e eram poucas! Em algumas casas estas colheres eram só para os chefes da família!

A miséria era grande, mas a meninada era animada. Mesmo com a crise, brincavam ao nosso redor, cantando:

Dó lin dó, fa ta ti ti ná,
Ná ná carambola issi
Si si caneca um pé
Xapi tchalina labanta um pé

Do grupo faziam parte Eu, Mémé, Tchontchon, Bébé e Djidji di Bina. Numa página tal, havia muita crise e pouca comida. A pouca comida existente na época era para se comprar na Bila (Cidade de S. Filipe). Uma família comprava três canecas de milho e desenrascava-se uma semana.

Naquele dia era noite de Canizade de San Djon. Sirvina veio a passar junto à casa da minha mãe (Deus dal céu). Ela ía para a casa de Ana Loma onde era a festa de Bandêra Grande e convidou-me. Chegados lá tiraram coladura trabessado e eu repliquei baxôn. De repente chegou defunta Noquinha de nós (que Deus dal céu, … elas todas estão hoje mortas, mas eu digo apenas a verdade para não vender a minha alma a Satanás) e pediu-me para colar. Recusei. Carcutiram-me.

Eu estava sentada à frente da cisterna da casa de Ana Loma de pernas estendidas. Mané d’Ana veio com um tagarron de xerêm que não comi por estar chateada com a guenga. Mas confesso que tinha muita fome. Levantei-me e fui me sentar ao lado de uma portuguesa que veio da Praia, acompanhada de Xani Badiu para passar a festa.

Do grupo de tamboreiros, coladêras e cachêros faziam parte Pêpê di Castigo, Pindoko, Punotxa, Mané Pêxi Kru, Dabega, Mané Partalaxa, Txerrin, Nhâ Dibija, Pitote, Dugudjo, Folabodi, Zé Bikêra, Radubico e Mangona, tudo bons cristan…

Havia milho, xerêm, carne e couve e também muita bebida. As mulheres beberam até se fartarem, alegrando a guenga. Gente de Zambuda subia com canizade de nôte pela estrada em direcção a Monte Grande. Nhô Tchiquete era o dono da Bandêra de Praia.

(Estão a ouvir a minha história; é um conto que tira outro e acrescenta-lhe um ponto!)

Quando Canizade tomou rumo para baixo eu os acompanhei. A meio do percurso constatamos que todas as coladêras mais velhas encontravam-se bêbadas. Os kachêros obrigaram-me a colar. Colei. Kodrei. Gostaram e assim virei coladêra das festas de bandêra de Djarfogo.

Ainda me lembro que era ao ritmo Nha Maria Tana.
Kôdrâ era assim:
Antam mámá nhâ distino
Oh, lé, lé, ló, lá...
Ah Pápá nhâ castigo
Oh, lé, lé, ló, lá
Nhâguêm djâm tuma um grogo
Oh, lé, lé, ló, lá...
Oh ê de Jaime de Jónia
Oh, lé, lé, ló, lá...
Antam djâ faltam untrum
Oh, lé, lé, ló, lá...
Ê de Dimingo Noquinha
Oh, lé, lé, ló, lá...
Aél ê stâ na Betifeti
Oh, lé, lé, ló, lá...
Ê câ tâ lembra di mim
Oh, lé, lé, ló, lá...
Nem pel mandam um dolla
Oh, lé, lé, ló, lá...
Pam cumpra pano menagi
Oh, lé, lé, ló, lá...
Pam roça criola Tchalino
Oh, lé, lé, ló, lá...
Quê lâ de Côba Cidrêra…”.

O evoluir da nossa conversa se virou para o contexto de seca e fome, que a fazia lembrar a aventura da emigração dirigida para S. Tomé e Príncipe, o papel do Administrador, Sr. Rendall e o desespero da juventude entregue à fome, à partida e à emigração forçada. Marcante mesmo, era o casamento ku “maricano” rumo â Betifêti…” num claro gesto de submissão familiar ao sonho americano de uma vida melhor, longe da fome e da miséria da época, pois como elas cantavam ao ritmo de KARKUTISSAN:

TIRADA P1.
“Birado di “States” riba dólla
Ku mala, maleta e sacos di rôpa
Embrudjos, presentes pâ tudo parentes
Mobílias pâ casa di têdja francêsa
TIRADA P2.
Nguenhado, sofrido riba Djarfogo,
Txico bico, liton di bôba
Sarta rêgo, contâ batata
Bendê bêxo, cumprâ cutxê
Bendê boca, cumprâ bocado
TIRADA P1.
Maricano di volta
Ê txuba na terra
Ê pêga, fitxâ, pertâ, larga
Pâ quem que krê muda di vida!
TIRADA P2.
Fundo baxu Rita Suzana
(…a continuar)

Ai da fome! Aí da miséria! Há que concluir que, num contexto desses, acossado pela fome, o homem sobrepõe o instinto de sobrevivência à razão, não respeitando leis, costumes, moral, nem se detém diante de obstáculos materiais. Por outro lado, nenhum medo pode suportar a fome, nenhuma paciência pode esgotá-la, a repugnância simplesmente não existe onde há fome; e quanto a superstições, crenças e o que se poderia chamar de princípios nada são mais do que palha soprada pelo vento.

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